domingo, 9 de janeiro de 2022

A História da Família "Coelho" - Parte IV

O Primeiro Casamento de meu Avô Zé Coelho


 Nunca fui boa de matemática as datas dos acontecimentos e as idades das pessoas descritas são pré supostas através de uma lógica cronológica estabelecida por mim portanto com uma certa margem de erro, mas vamos acreditar que esta lógica possa ter me ajudado na aproximação da veracidade dos fatos. 

Na linha sucessória Zé Coelho talvez tenha sido o segundo filho de Sá Donana e seu Virgílio, visto que a primeira filha havia nascido na França, a data de seu nascimento não é precisa mas acredito que tenha sido  na última década do século XIX, ainda jovem, Zé Coelho casou-se com Balduína e com ela teve três filhos :

Antalha,

João Coelho (tio João) e

Manuel.

Quando as crianças atingiram a adolescência Balduína veio a falecer e Zé Coelho se viu sozinho com os três filhos para criar.

Não tenho informações sobre a ocupação de Zé Coelho nesta fase da vida em que fora casado com Balduína, o que me foi contado é que logo após ficar viúvo Zé decidiu "ganhar o mundo", deixando seus três filhos aos cuidados dos avós paternos e suas irmãs.

Talvez a situação financeira em Belo Horizonte não fosse das melhores e Zé tenha decidido se aventurar como garimpeiro pelo interior de Minas Gerais, levando-o, não sei se por destino ou acaso a um dos subdistritos de Corinto onde conheceu e desposou dona Felicidade, sua segunda esposa, a morena bonita de ancas largas que entrou na venda a procura de farinha.


........continua.......


sábado, 8 de janeiro de 2022

A História da Família "Coelho" - Parte lll

Acho que o grande protagonista da nossa história foi sem dúvida meu avô Zé Coelho, sem a sua audácia, quiçá falta de escrúpulos em aceitar  barganhar sua égua por dona Felicidade não estaria eu aqui contando todas estas histórias sobre a nossa família. Então vamos a ela.

Sobre os meus Bisavós Paternos : Ana e Virgílio, pais do meu avô Zé Coelho

A descendência de Ana e Virgílio Coelho talvez fosse Européia, digo isto porque há indícios de que Ana era portuguesa e uma de suas filhas nasceu na França antes de virem para o Brasil, os demais filhos eram todos brasileiros.

Sá Donana como era chamada casou-se com Virgílio Coelho e tiveram 7 ou 8 filhos mas apenas seis deles vingaram, sendo que uma das meninas nasceu na França, não sei dizer se na ocasião estavam apenas de passagem ou se havia algum parentesco por lá, o que me foi informado é que logo depois vieram para o Brasil onde fixaram residência em Belo Horizonte - Minas Gerais, final do século XIX

Os filhos de Sá Donana com Virgílio eram :

América

José Coelho

Conceição

Guiomar

Geraldo

Iaiá.

Todos os filhos permaneceram em BH exceto Zé Coelho que anos mais tarde veio morar em São Paulo.

Informações sobre os irmãos de meu avô :

Pessoalmente conheci quatro deles em ocasiões distintas. Lembro com nitidez que certa vez meu pai foi de carro a um hotel no centro de São Paulo buscar tia América e tia Iaiá para levá-las a Solemar afim de que ambas conhecessem o mar. Pegamos um final de semana horrível, o mar estava de ressaca e as ondas chegavam próximas as ruas, havia barrancos de areia e uma vegetação rasteira e espinhosa, não sei precisar quantos anos eu tinha, era pequena e por acidente uma onda forte me derrubou, senti o desespero de morrer afogada e o salgado da água na minha garganta quando um braço forte me resgatou. Talvez este acontecimento tenha fixado tia Iaiá e tia América na minha memória.

Com quinze anos eu e meu irmão Reinaldo tivemos a oportunidade de conhecermos Belo Horizonte, foi tia Luzia que nos levou a conhecer Tia Conceição casada com Júpiter casal com grandes posses e Tio Geraldo casado com dona Guiomar, homônima de sua irmã, que também era Guiomar. Geraldo morava próximo de tia Luzia e tio João, era marceneiro e fazia trabalhos artísticos em marchetaria, expunha suas peças numa feira de artes e artesanato que acontecia todos os domingos na Praça da Liberdade, foi nesta feira que fomos apresentados ao tio Geraldo e pude me encantar com a riqueza de seus trabalhos em marchetaria.

Acredito que Sá Donana e seu Virgílio Coelho não eram pobres, todos os filhos eram mais que simplesmente alfabetizados, todos sabiam tocar algum instrumento, há notícias de que Conceição tocava violino muitíssimo bem. Talvez o fato da condição financeira ser relativamente boa explique ou justifique o comportamento de empáfia que meu vô Zé Coelho manteve e nutriu por toda sua vida.



......continua.......

 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

"O Olho Mais Azul" - Toni Morrison

Não sou crítica literária nem tenho bagagem para tanto mas sempre gosto de deixar registrado minhas impressões toda vez que finalizo uma leitura.

Este livro me foi emprestado, e a primeira coisa que fazemos quando temos um livro em mãos é analisá-lo externamente, já ouviu aquele provérbio que diz "Não devemos julgar o livro pela capa ?" Esquece, porque julgamos sim, talvez o façamos até inconscientemente mas o fazemos, antes mesmo de saber do que se trata.

A capa do livro tem um layout bastante simples, ele é todo cinza, um cinza grafite bem escuro, sua textura é lisa e opaca, não é capa dura e a gordura da mão fica impressa com o seu manuseio, nele se desenha a silhueta de uma menina negra com um vestido rodado, lenço na cabeça a mão espalmada e o braço estendido jogando algo que a princípio não se define bem o que é e, um pequeno sapo pulando, fugindo do tal objeto, apenas isso mais nada, não há letras garrafais com o título do livro e muito menos se sobressai o nome da autora, podemos notar estas informações apenas na lombada, letras brancas sobre fundo azul.

Julguei que se tratasse, mais uma vez, desses livros que levantam bandeiras pela minoria, com aquele fundo socialista e politicamente correto, não raro hipócritas e felizmente me enganei.

Toni Morrison parece ser um nome masculino contudo é uma mulher negra nascida no começo da década de trinta nos EUA quem escreveu o livro.

A história é simples, e é contada de uma maneira bem peculiar, a primeira página do livro revela o seu desfecho e mesmo sabendo seu fim ficamos na curiosidade de saber como tudo sucedeu, "cá entre nós".

Pecola Breedlove é uma pré-adolescente negra e pobre, muito mais negra do que qualquer outra negra, com o cabelo muito mais pixainho do que qualquer outro e feia, muito feia, tão feia a ponto de causar escárnio entre os seus, ela reconhece no espelho sua feiura e seu desejo é ter olhos azuis, o milagre para  sua salvação.

Funde-se a história de Pecola outras histórias das pessoas que contribuem diretamente para o seu desfecho e eis aí o que me surpreendeu. Cada história contada é uma justificativa desculpando seus personagens dos seus atos humanamente perversos até mesmo o estupro da adolescente pelo próprio pai nos foi narrado de uma maneira que mais nos consterna do que nos revolta. A história de Pecola é triste, nos causa empatia, mais triste ainda é pensar em quantas Pecolas, ainda hoje, existem por aí, Pecolas de todas as cores, de todas as feiuras ansiando por salvadores pares de olhos azuis.

Bem, é isto ! "O Olho Mais Azul" não é um livro de enfeitar estante, é um livro para ser lido e ser passado de mão em mão.

Leiam ! A leitura é fácil e o livro é bom !

                                                                  Silvia.



quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

A História da Família "Coelho" - Parte ll

Sobre as circunstâncias em que meus avós paternos Zé Coelho e Felicidade se conheceram.


Quando Cândido ficou viúvo de Maria, Miguel, o filho mais velho, era um rapazinho e talvez Salomé a segunda  filha já estivesse casada com Francisco (Chico); o que sei de fato é que Felicidade tinha apenas nove anos de idade e não demorou muito para que seu pai Cândido se casasse novamente. "Baiana" era o apelido da madrasta, foi então que começaram os conflitos familiares, as crianças eram maltratadas, trabalhavam pesado e eram corrigidas com severas surras, tanto que motivaram Miguel a sair de casa e tentar a sorte em São Paulo atrás de melhores condições e foi na grande cidade, por motivos desconhecidos, que passou a se chamar Salvador. Salomé a irmã mais velha, casada com Chico, apiedou-se das irmãs menores e tomou pra si juntamente com o marido a responsabilidade de terminar de criar as meninas.

Saltam daí aproximadamente dez anos, Felicidade cujo apelido era "Daia" ajudava a irmã nos afazeres da casa.

No pequeno vilarejo havia uma única venda que servia os moradores locais e também aqueles que estavam de passagem como garimpeiros, caixeiros-viajantes e tropeiros. Estamos falando do interior mais remoto de Minas Gerais, um dos subdistritos da cidade de Corinto , município que faz parte integrante da região do Médio Rio das Velhas na Zona do Alto São Francisco, há 175 km pela estrada até Diamantina e um pouco menos de 100 km em linha reta. 

Era começo da década de 30, e o extrativismo mineral ainda era frequente naquelas bandas, a esperança de encontrarem uma pepita ou uma jazida de ouro impulsionavam as pessoas a se aventurarem mata adentro sempre com aquela ilusão e principalmente a ambição de "Fazer a Vida".

Certo dia faltou farinha em casa e Salomé pediu a Daia que fosse na venda buscar.

Justamente naquele dia Zé Coelho, garimpeiro de passagem, havia apeado sua égua em frente a venda e se aboletado numa das mesas quando seus olhos cresceram ao ver entrar aquela morena de ancas largas a procura de farinha.

Ouviu-se um murmúrio e um gracejo incontido por parte do forasteiro percebido maliciosamente por Chico, cunhado de Daia que também se encontrava no local e o mesmo sem vacilar perguntou a Zé Coelho : "Gostou dela ?" cuja resposta foi : "Ô se gostei !" Foi quando Chico propôs :" Quer casar com ela ?" Surpreso Zé perguntou se ele era o pai da moça esclarecendo-se depois que Chico era  tão somente seu tutor.

 Foi uma conversa ligeira e franca, Chico com ares de pai  e já de olho na égua apeada em frente a venda ofereceu Daia em casamento em troca do animal, sem hesitar Zé Coelho aceitou a barganha e assim ficou acertado um jantar naquele mesmo dia.

A noite Zé Coelho montado em sua égua chegou à casa de Chico e Salomé como o combinado,  Daia preparava um café na cozinha para a inusitada visita, totalmente alheia a conversa que se seguia, foi então chamada à sala e apresentada aquele homem desconhecido da seguinte maneira :" Daia este é Zé Coelho, seu futuro marido". Não houve reação, não houve recusa, talvez uma expressão de estranhamento e surpresa, uma aceitação inevitável de se cumprir uma ordem, nada mais.

Casaram-se na mesma semana, numa igrejinha local.



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A História da Família "Coelho"

 Esta história que vou lhes contar se trata da família do meu Pai, Virgílio Coelho Neto e me foi contada por minha mãe, Ayda Marques Coelho que fará, em fevereiro, 82 anos. Minha mãe nasceu com uma memória invejável e todos os fatos e nomes aqui descritos lhe foram confiados pela minha avó paterna que amava minha mãe como se fosse sua filha, dizia ela : "Ayda é a filha que Deus me deu".

É óbvio que por mais que eu me esforce haverá uma interferência pessoal dentro da minha narrativa mesmo assim vou me policiar e tentar ser o mais fiel possível para que a verdade prevaleça.

Sobre meus Bisavós Paternos : Cândido e Maria, pais da minha Vó Felicidade

De acordo com as minhas pesquisas o mais longe que consegui chegar na nossa ascendência foi em 28 de Setembro de 1871, data em que foi assinada e promulgada a Lei do Ventre Livre considerando "livre" todos os filhos de mulheres escravas nascidos a partir de então.

O pai da minha vó Felicidade se chamava "Cândido" e foi beneficiado com a tal Lei, não temos registros da data exata de seu nascimento, apenas o fato de ter nascido alforriado, sua mãe era negra e escrava portanto pressupomos que "Cândido" também deveria ser negro ou mulato.

A mãe de minha vó Felicidade se chamava "Maria" não temos informações sobre ela pelo fato de ter falecido quando minha vó tinha apenas nove anos de idade, talvez "Maria" fosse branca mas não há registros.

"Cândido e Maria" tiveram quatro filhos : "Miguel", que mais tarde mudaria seu nome para "Salvador", "Salomé", "Eva" e "Felicidade".

O nome completo de minha vó era "Felicidade Pereira de Carvalho" tinha a pele morena, mas os traços do rosto eram suaves os cabelos levemente encaracolados e finos, o quadril largo e as ancas pronunciadas lhe conferia as características de sua ascendência negra herdada pelo pai.



......continua...... 

 


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

2022

 Desde a passagem de ano chove, uma chuva intermitente, persistente, se fosse uma chuva abrupta, forte, dessas que lavam a alma seria uma chuva boa mas não, é uma chuva que entristece, atemoriza a alma, não sei se deveria eu falar em presságios em meio ao vento e a chuva....meu coração anda deveras triste; quando era mais nova eu sempre pensava em correr e fugir na esperança de que se eu corresse a tristeza não me alcançaria e se eu me escondesse nenhum problema me acharia, hoje eu sei que isto é uma grande bobagem, não importa pra onde eu vá, serei sempre eu, minhas angustias, meus temores, meus problemas.

Ontem estive na minha mãe com meu filho e minha nora para tomarmos café, minha mãe ouve pouco e uma de suas estratégias para interagir é conversar sobre os assuntos que lhe aguçam a memória, muita coisa também vivi e muita coisa se avivou na minha mente, aquela conversa me deixou ainda mais triste, tão triste que me fez chorar, ali em frente a todos, um choro tímido, contido e muito sentido como se as lembranças fizessem as coisas acontecerem novamente diante dos meus olhos, disfarcei, mudei de assunto, enxuguei as lágrimas que secaram no meu rosto mas a tristeza e a melancolia ficou, ficou pra me atormentar a noite toda, tanto que me trouxe até aqui logo cedo, onde posso simplesmente escrever e desabafar sobre tudo que me aflige.

Com tudo que ouvi pensei e decidi escrever sobre minha família para que a história não se perdesse no vento, quero preservar estes registros fielmente, com nomes e acontecimentos narrados por minha mãe, a legítima guardiã e detentora da verdade dos fatos.

Sabe por que resolvi fazer isto ? Porque no final do ano passado no grupo da família surgiu o assunto dos nossos antepassados por parte do meu pai e em meio as nossas divagações minha mãe foi a única que não se manifestou nos confessando ontem, em meio ao café, que nunca havia lido tamanha bobagem que estávamos todos equivocados, então se estamos enganados vamos nos corrigir e assim pretendo escrever, deixar devidamente registrado tudo quanto eu possa absorver de minha mãe e assim será.

Quanto os meus temores e a minha tristeza há outras razões, mais atuais mas que por hora não quero pensar.... 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

"O Tigre"- John Vaillant

 Antes de fazer uma pequena resenha sobre a obra gostaria de deixar registrado a minha insatisfação por tê-la interrompido. Era meu objetivo ler um livro por mês só que em meados de agosto acabei me distraindo com outros afazeres e deixei a leitura pra segundo plano, agora estou tentando recuperar o tempo perdido, bem, enfim consegui terminar o livro e gostaria muito de comentar sobre ele....


É uma história verídica que ocorreu no final da década de 90 no extremo oriente da Rússia, região inóspita cuja temperatura no inverno chega a 40 graus negativos. Um tigre siberiano ataca e se alimenta de um morador local, esta narrativa acontece no primeiro capítulo do livro e de tão bem escrita nos tira o fôlego, é como se um filme nos rodasse a mente.

Partindo daí uma equipe é acionada para fazer uma minuciosa inspeção do que realmente aconteceu, visto que não é comum tigres atacarem seres humanos de maneira tão premeditada e cruel.

O autor do livro também é minucioso na sua narrativa, ele vai descrevendo em detalhes a Taiga Siberiana, habitat natural dos tigres, as tribos que desde os primórdios co-habitam com estes seres selvagens, a invasão do homem russo que assolados pela pobreza pós-perestroika recorrem a caça ilegal para sobreviver, provocando um desequilíbrio avassalador no meio ambiente.

Mas o que mais me impressionou foi a análise psicológica de todos os fatos sucedidos, a destreza e inteligência do tigre são calculadas, nada acontece por acaso, é uma vingança premeditada e a equipe precisa com urgência detê-lo.

Bem, a genialidade do autor John Vaillant em descrever o ameaçador tigre-siberiano e todas as suas artimanhas são fantásticas, é um livro extremamente instigante, com um desfecho apavorante, o embate entre o homem versus natureza.

Sem dúvida nenhuma uma narrativa magnetizante.

Leiam ! O livro é mesmo muuuito bom !!!!