segunda-feira, 31 de agosto de 2020

"31 de Agosto - E o Pulso Ainda Pulsa"

 Há seis anos ela descansou de tanto que se exauriu, foram longos anos de luta contra um câncer de mama.

Fui visitá-la em junho quando seu estado de saúde se agravou.

Encontrei-a pálida quase sem cor, usava um gorrinho de lã, muito magra e com sorriso no rosto, tamanha a felicidade em nos ver.

Estava tão debilitada que não havia a necessidade de fazer o sacrifício em nos buscar no aeroporto da cidade de Dourados - MS visto que a casa onde moravam ficava distante e o carro velho toda vez que passava por um buraco na estrada de terra lhe causava visível incômodo, percebido nas suas feições que se contorciam de dor sem dizer um único "ai", só depois foi nos explicado que o fato dela estar ali não era apenas consideração por mim ou por minha mãe, sua irmã, o que ela sentia era muito medo de estar só.

Ficamos hospedados em sua casa durante uma semana e de tudo o que vi e presenciei o que me vem na cabeça é um trecho da música dos Titãs "...o pulso ainda pulsa..." Como pode um corpo sofrer tanto ? Como pode um corpo aguentar tanta dor ? ... e o pulso ainda pulsa...

Esta doença é perversa e desumana, nos reduz a nada, nos humilha, esfrega nossa cara no chão junto com nosso ego e todo o nosso orgulho... e o pulso ainda pulsa...

Eu não sei explicar em palavras o que aprendi aquela semana em Dourados, sei que foram inúmeras lições.

Com todo aquele sofrimento ela ria e nos contava histórias, mesmo sem conseguir comer nos acompanhava á mesa, foram longas conversas amenas e jamais conversamos sobre a gravidade daquele momento, porque o pulso ainda pulsava...

Houve um dia em que ela me contou que a angústia lhe batia ao entardecer, quando o sol lentamente se escondia nas planícies, angústia e medo de morrer, acho que era isto o que queria dizer, mas nunca confessou abertamente porque desviávamos todo e qualquer assunto ao que se referisse a morte.

Na hora de ir embora enquanto o Táxi nos aguardava pude me despedir dela com um longo e forte abraço, seus olhos marejaram, se encheram de lágrimas e ela me pediu que cuidasse de minha mãe porque sabia que sua morte lhe causaria grande sofrimento e eu só consegui lhe responder que não se preocupasse que minha mãe era uma pessoa muito forte, subtendendo que ela aguentaria o tranco.

Penso que fui tão inábil e tão insensível naquele momento, não era nada daquilo que eu queria dizer, quis sim me fazer de forte, mas na verdade estava desabando por dentro e não queria deixar transparecer.

Ela estava muito mal e eu presenciei aquela semana... e passou junho... e o pulso ainda pulsava... passou julho inteiro com seus intermináveis 31 dias... e o pulso ainda pulsava... e veio agosto inteiro, dia após dia e de tão cansada ela finalmente conseguiu morrer dia 31 de agosto de 2014.... o pulso por fim parou de pulsar...


*choro por sua dor...choro por sua ausência... pulso...






sábado, 29 de agosto de 2020

"As Pontes de Madison"

 Finalizei o livro "As Pontes de Madison" de Robert James Waller.... não sei nem por onde começar, há tanto o que dizer...

Óbvio que devo ressaltar, mais uma de tantas vezes, que não sou crítica literária e muito menos é meu objetivo fazer um resumo da história, aqui registro apenas as minhas impressões, então vamos a ela...

O livro realmente me pareceu roteiro de filme; consegui imaginar  a atuação dos atores Meryl Streep e Clint Eastwood em cada parágrafo do livro como se estivesse realmente assistindo a película.

Foi uma leitura rápida e fácil pela dinâmica da história, um tanto açucarada para o meu gosto, contudo foi bem envolvente e me fez lembrar dos meus dezoito anos quando pegava aqueles romances de banca de jornal com nome de mulher tipo "Sabrina" onde me deleitava com suas histórias melosas e picantes.

A história retrata um romance fugaz entre um homem e uma mulher na idade madura, e só não seguiu adiante pelo fato dela ser casada, ter filhos e viver numa cidade pequena onde todos seriam estigmatizados, ou seja, o preço da sua felicidade seria alto demais e nenhuma de suas escolhas a tornariam feliz de fato, então ela preferiu ser infeliz mantendo a fidelidade á sua família.... é ! difícil ! mas assim se desenrolou aquele caso de amor....

Minhas particularidades...

Qual mulher não gostaria de ter vivido um amor assim ? Mas amor assim existe ? Digo, existe de verdade ou apenas na literatura ?

Eu acredito que o  platônico deixa tudo sublime e perfeito demais em qualquer circunstância e assim deve permanecer para que este "suposto amor" se mantenha no seu inviolável pedestal, caso contrário a realidade profanaria o que seria de mais sagrado, a perfeição daquilo que se imagina.

Nossa cabeça nos rege, acreditamos naquilo que queremos acreditar, e eu não acredito em alma gêmea, mas acredito que podemos fazer uma história de amor fantasiosa para podermos suportar as agruras do cotidiano do amor real, então imaginar que um dia existiu alguém especial e que houve entre um homem e uma mulher, independente da idade, uma conexão que vai além do nosso entendimento racional, não é fuga e sim um alento.

Entre os personagens houve esta conexão e ambos se mantiveram fiéis aos próprios sentimentos além de suas existências, utópicos e apaixonantemente irreais, eis a beleza deste romance e se há por ventura alguma similaridade com a minha história ela só existiu na minha santa imaginação.

*Leitura despretensiosa... vamos ao filme...






quarta-feira, 26 de agosto de 2020

"Chocha"

 Parece que estou ouvindo a voz da minha vó materna dizendo "estou chocha !" ela usava bastante este termo quando estava meio apagadinha e hoje quem está chocha, murcha, sem graça sou eu, aliás já tem um tempo que ando "meio" inteira chocha, me esforçando muito para reverter este quadro.

Posso dizer que esta semana estou bem melhor do que a semana passada, vislumbro aí uma sensível melhora.

Comecei a ler o livro que tanto queria, aquele que virou filme e foi um grande sucesso: "As Pontes de Madison".

Não quis assistir ao filme antes de ler o livro. Sei mais ou menos que se trata de uma história de amor, desencontros, escolhas, renúncias... enfim só lendo pra saber qual o tempero de tudo isto e se o enredo vai me agradar como agradou tanta gente. Desconfio. Não sou do contra mas sou difícil.

Assim, meio por cima, pensei que talvez pudesse me identificar com o livro...sorrio sem graça com tamanha bobagem.

Há bem pouco tempo tive a oportunidade de conhecer melhor meus personagens e descobri que eles eram pessoas incríveis apenas dentro desta minha cabeça fantasiosa, na realidade eles eram pessoas pra lá de normais com poucas virtudes e muitos defeitos, tão reais como eu ou você, sem nadica de nada de tão especial.

O que me fez sentir aliviada por saber que não perdi absolutamente nada e que inconscientemente minhas escolhas me protegeram do mal que poderia estar fazendo a mim mesma.

Será que nem bem comecei a ler o livro já misturo ficção com realidade ?

Quem é que tem tanta certeza de suas escolhas nesta vida ?

Os tolos, talvez....

Vamos deixar de bestagem... e vamos ao livro !



domingo, 23 de agosto de 2020

"Domingo Dia de Nada"

 Ficamos sabendo que os compadres de Águas de Lindóia pegaram Covid-19. O compadre, diabético, está assintomático, quanto a comadre o vírus lhe pegou de jeito. Pelo que relatou a situação ficou tensa mas graças a família repleta de médicos ambos foram muito bem orientados e assistidos e, diga-se de passagem, segundo consta nada de cloroquina. Fico feliz com as notícias de sua melhora, não demora muito irá se recuperar totalmente.

Quanto a mim ando me esforçando, tentando focar um dia por vez, fico repetindo pra mim mesma que o que vivemos é o agora, por exemplo, agora me deu vontade de escrever, estou por aqui, e escrever me distrai e.... é isso.

Na segunda-feira passei muito mal, não por conta da endoscopia, e sim pela pequena dose de anestesia... é, acho que foi isto....a anestesia.

Sexta-feira me ligaram para refazer a mamografia, foi lá que desmaiei após a endoscopia, se vê que as radiografias não foram suficientes ou não ficaram boas, então amanhã tenho que retornar ao hospital para refazê-las.... mas isto não é o meu agora, este agora se dará apenas amanhã....

Já deu pra perceber que estou reticente....

.....vou melhorar....

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

"A Quarta Morte - Walter Egéa"

 Terminei de ler o livro.

Demorei um pouco porque houve algumas interrupções mas, por fim terminei.

Gosto sempre de deixar meu parecer quando finalizo uma leitura e diga-se de passagem que o que faço não é um resumo da história e sim as impressões que a mesma me causou.

Este livro chegou em minhas mãos através do meu filho e minha nora.

Walter, o autor, é pessoa conhecida, de longe mas é, ele foi professor de sax e clarinete deste meu filho, sei que nos vimos apenas por duas vezes, o suficiente para aguçar-me a curiosidade em saber um pouco mais sobre o conteúdo de sua narrativa.

Penso que não são raras as pessoas que escrevem mas penso também que são poucas que se arriscam a publicar seus escritos, admiravelmente, Walter assim o fez.

Quando li a contracapa achei que se tratava de uma biografia e me identifiquei quando falou de seu primeiro amor e de um beijo que nunca aconteceu, mas ao ler o livro percebi que estava parcialmente enganada.

Então vamos as minhas impressões....

A narrativa é em primeira pessoa, propositalmente ele escreve com letras minúsculas o que me remeteu a outro escritor contemporâneo, Valter Hugo Mãe, que assim também o faz, a explicação deste é que cada palavra tem o seu relativo valor e nenhuma se sobrepõe a outra, já no livro do Walter há sim uma única referência com letra maiúscula, quando se fala dela, a Morte em questão.

A história não é linear, os personagens, cada qual dentro do seu contexto, transmutam constantemente, ele permeia algumas de suas experiências pessoais com as histórias de seus personagens e assim ele vai construindo o enredo até que por fim todos se encontram e se confrontam, autor-escritor-narrador-personagens.

Livro instigante e reflexivo.

...."estamos sempre á espera Dela e quanto mais esperamos, menos esperamos...."






quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Paradoxo : "A Imaterialidade é o que temos de Concreto"

 Vem cá, você acredita mesmo que esta Pandemia serviu para algo bom como muita gente, demagogicamente, propaga por aí ?!

Não acredito não, aliás acredito exatamente o contrário, que esta Pandemia serviu para desabrochar o lado mais obscuro das pessoas.

Pensa em como é fácil nos acostumarmos com tudo nesta vida, tanto com as coisas boas, claro, muito mais rápido mas, com as coisas supostamente ruins também.

Não chamo isto de "acomodação" e sim um processo natural de "sobrevivência", pois quem vive tem que arrumar um jeito de superar as adversidades impostas para continuar, enfim, sobrevivendo, seja lá de que jeito for.

Por isso as perdas e as ausências nos comove, nos dói por um certo tempo, mas não demora muito damos um jeito de superá-las, cicatrizamos nossas feridas, substituímos, readaptamos, nos adequamos a atual realidade para que, mesmo que involuntariamente, a vida siga seu novo curso, isto acontece para todos que indistintamente nela reside e independe da nossa vontade, tão natural e despercebido quanto piscar os olhos.

Pois é ! e assim a vida segue adiante.

Mas não desviando do assunto percebo que esta Pandemia isolou as pessoas de tal modo que nos acostumamos a viver isolados, cada pessoa dentro do seu mundo e só compartilhando com os seus virtualmente acabamos por viver uma realidade paralela.

Então simplesmente nos acostumamos as ausências, sem mais beijos, sem mais abraços, sem contato físico, sem contato emocional.

Será que um dia voltaremos ao normal ?

Não. Não pra mim, acredito que viveremos um novo "Normal", este atual que nos distanciou.

Mas será que houve um tempo em que realmente nos preocupamos com o outro ou por obra da Pandemia estamos dando de ombros como sempre estivemos e nunca tivemos a coragem de assumir ? 

Há vestígios que sim.

A hipocrisia é tão escancarada, discursos que não condizem com as ações, um egoísmo tão evidente.

Quem já era de se isolar só arrumou uma desculpa "boa" e "justa" para fazê-lo.

Estamos sós. Esterilizados. Calafetamos o nosso metro quadrado diariamente. Fingimos que nos importamos. A realidade é oposto. A humanidade está se perdendo dentro deste mundo virtual.

Paradoxo :

Por hora, "A imaterialidade é o que temos de Concreto".

Triste e Virtual Realidade.

Lembrei do Ariano Suassuna para dizer que hoje acordei chata pra caramba, pois segundo ele :

"O Otimista é um tolo,

O Pessimista um chato e

O Realista um esperançoso"


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

"Uma Vastidão do Nada"

 Para escrever é preciso de motivação, aliás pra tudo na vida precisamos estar motivados, esses dois dias que se seguiram me vi sem a tal da motivação e hoje sem estar muito crente apenas um tanto carente me ponho aqui á escrever.

Segunda-feira foi barra, fiz o tal do exame que necessitava de um longo jejum e sedação e só porque preciso otimizar o meu tempo, sem comer, emendei um exame seguido do outro, ah, não deu outra, passei mal e fui parar no Pronto Socorro. Um dia inteiro perdido por conta do mal estar, só fui me recuperar ontem quando voltei a me alimentar, mas a cabeça e os maus pensamentos não me largam ou eu não os largo, esta noite tive pesadelos.... 

Preciso me centrar e me aprumar, é só uma fase ruim e vai passar, é nisso que preciso acreditar.

Há dias ando pensando no Couto por conta de uma postagem que fez na sua rede social agradecendo aos amigos, um tom meio que despedida, aquilo me deixou triste. Eu o conheci por intermédio de meu marido, ambos trabalharam juntos, certa ocasião ele veio aqui em casa pegar alguns livros que havíamos doado para uma escola carente em que faz trabalho voluntário. Grande homem ! Sempre preocupado com o saber e semear conhecimento. Há bem pouco tempo comecei a segui-lo na rede social, adorava ler o seus textos, sempre bem humorados e recheados de lembranças e boas histórias, mas de um tempo pra cá os textos foram rareando, alguns se tornaram melancólicos, tudo por conta de uma doença grave que lhe acomete, é tudo tão triste ! Ontem, através de um texto, ele se despediu pra valer dizendo que excluiria sua conta na rede social, agradeceu aos amigos e nos desejou coisas boas como sempre faz.... é tão difícil.... eu só consegui lhe agradecer pela companhia dos seus textos que tantas vezes me fez rir e outras tantas me inspiraram ... houve muitos amigos lhe pedindo pra não se afastar, mas só quem passa por certas situações é que sabe como é difícil superar.... entendo o Couto, entendo e também me entristeço... porque se não há motivação o que é que nos sobra ?!

Uma vastidão do "Nada".